01 – Não há motivos para preocupações

Posted in Fuga de Magalhães with tags , , , , , , , , , on Fevereiro 28, 2009 by s7alker

O véu da calma negra era uma manta protectora, concha sólida contra as adversidades de uma realidade impassível. Ficar ali, longe da confusão, longe do sofrimento, longe das adversidades. Sempre… Para sempre…

Por um momento John sentiu uma leve irritação quando aquela onda lhe perturbou a calma líquida, estagnada. Novas ondulações vieram, e então John compreendeu. Reconheceu-a, o tom alarmado desfigurava-a, mas era ela, era a sua voz…

“John! Onde estás? John!”

Ele estremeceu, mas era incapaz de se mover. A voz afastou-se.

“John?… Rama… Acho que estou a ver algo aqui… Deixa-me…”

Alyx… Mas ele nada podia fazer. Não se conseguia mover, abrir os olhos, ou chamar pelo nome dela. Pensou, com uma certa dose de ironia, que iria morrer com a salvação mesmo ao seu lado. E então a luz envolveu o seu mundo e ele cerrou as pálpebras com mais força.

“John?” A voz não era dela. John arriscou abrir os olhos, e viu as foices afiadas de um imenso réptil. Mas não teve medo.

“Rama…” Murmurou ele, sorrindo de alívio contra a luz que o forçava a espremer as pálpebras. O canto da boca do Digimon torceu-se num esgar de um sorriso.

“Tens uma sorte que nem te estreias, humano!” Rama puxou-o por um braço e retirou-o daquele cantinho escuro entre os escombros. Hesitante, John tentou aguentar-se nas duas pernas. Se não fosse a armadura que envergava certamente que aquele amontoado de metal e rocha o teria esmagado. Olhando para diante, viu a expressão preocupada de Alyx.

“John?!… Estás bem?” Ele nem reparou no suave sorriso que se desenhou na sua face, mas ela sim. Alyx saltou para cima dele e envolveu-lhe pescoço num abraço apertado. Ainda periclitante, John quase tombou para trás. Ela afastou-se e segurou-lhe os ombros. Sorria, os olhos húmidos. “Raios, John… Pensava que te tinha perdido.”

“Não tão facilmente…” Disse ele, tentando parecer bem-disposto.

Alyx recuou um passo, passando uma mão pela face, como que para limpar lágrimas ainda por escorrer. Suspirou. Depois olhou para cima e para trás. John seguiu-lhe o olhar, e o queixo caiu-lhe.

“Meu Deus…”

Estavam rodeados de escombros, que se amontoavam como montanhas informes. A Cidadela erguia-se bem diante de John, ascendendo como uma torre de metais desconhecidos, mas já não alcançava as nuvens. O seu topo estava torcido e dobrado para fora, despedaçado por uma terrível explosão. A explosão que matara o doutor Breen e que o deveria ter atirado e a Alyx para o oblívio com ele. Mas eles estavam vivos…

“Oh, meu Deus…” Murmurou Alyx. “Como é que estamos vivos?”

Olhando ainda mais para cima, John reparou no jacto de energia que emergia das entranhas estropiadas da Cidadela, curvando as nuvens num halo que o envolvia.

“E como viemos parar aqui abaixo?…” Ela voltou-se para Rama. “Foram vocês?”

O Greymon encolheu os ombros.

“Foi estranho…” A pergunta de Alyx fez John lembrar-se de algo acerca do seu estranho salvamento. “Eu vi o G-man… Mas ele foi afastado… Por um grupo de Digimons… E o Blue estava com eles.”

“O Blue?” Rugiu Rama, subitamente agitado. “Esse idiota.”

“Ele salvou-me, Rama, e talvez também a Alyx.”

O Digimon voltou-se momentaneamente para a rapariga. Era óbvio que havia um forte laço entre os dois. O seu olhar agressivo voltou-se novamente para John. Era estranho, pensou o humano, que agora ele fosse tão susceptível sempre que se falava no antigo companheiro de armas.

“Ele está metido nas loucuras dos Regeneradores, John, tu sabes isso. E acredita…” Apontou para a Cidadela destroçada. “Se achas que isto é um monumento aos pecados da Aliança, também o é aos pecados dos Regeneradores. São todos fanáticos… O teu salvamento vai ter um preço, acredita.”

“São inimigos do nosso inimigo…”

“Mas não são nossos amigos.”

Com isto, Alyx resolveu avançar e colocar-se entre eles os dois. Da perspectiva de John, a sua figura esbelta enfrentava a forma enorme e agressiva do Greymon.

“Calma rapazes. Não é altura para isso. Estamos todos vivos, é o que importa. Mas temos de decidir o que vamos fazer agora.” Olhou para o jacto de energia que continuava a esvair a Cidadela. “Para começar temos de descobrir o que se passa ali dentro.” Voltou-se para John. “O rádio do teu fato, ainda funciona?”

“Posso ver…” Ele abriu uma placa montada no antebraço esquerdo do fato, expondo um pequeno teclado. Remexeu-o por um bocado. “Deve dar… Doutro Kleiner! Está em linha? Kleiner?”

Do transmissor montado a par do teclado ouviu-se uma resposta quase imediata. “John? Estás vivo… Graças a Deus!”

Alyx sorriu abertamente. Saltou para o lado de John e curvou-se ligeiramente para poder falar para o transmissor. “Doutor Kleiner! Bom saber que estás vivo! O meu pai está contigo?”

“Alyx, minha querida, que bom saber que também está bem! Sim, o teu pai está aqui comigo.” Ouviu-se outra voz por detrás da de Kleiner.

“A minha filha? Alyx, estás bem? Pensei que te tivesse perdido naquela explosão! Oh… Vocês têm de sair da cidade.”

“Não há motivos para preocupações, Eli…” Disse calmamente a voz de Kleiner. “Por esta altura eles já devem estar bem longe de Magalhães.”

“Estou óptima pai!” O sorriso dela cresceu mais ao ouvir a voz do velho Eli Vance. “E, por acaso, ainda estamos junto da Cidadela…”

“O quê?!” Exclamou Kleiner, falando agora num tom ansioso. “Mas não há tempo! O reactor de energia negra da Cidadela está quase a explodir!”

“A explodir? Isso está relacionado com este jacto de energia? Estão a ver o mesmo que nós?”

“Sim estamos! A detonação da câmara de transporte deve ter destabilizado o reactor de energia negra da Cidadela. Parece estar agora a atingir a massa crítica! No nosso esconderijo estamos a receber leituras totalmente fora da escala! Se nada for feito, não faltará muito tempo até que o reactor expluda e envolva toda a cidade de Magalhães numa onda destrutiva que a destruirá e a todos dentro dela! Temos de fazer algo…”

“Izzy…” Murmurou Eli, por detrás da voz de Kleiner.

“Vai ser uma devastação inimaginável, uma força terrível…”

“Isaac.”

“Toda a cidade estará sujeita a efeitos teóricos que nem eu posso começar a imaginar!”

“Doutor Kleiner! Controle-se! Alyx, John! Afastem-se o mais possível da Cidadela, salvem-se!”

A jovem engoliu em seco ao ouvir aquelas palavras.

“Pai… Nós podemos tentar impedir a detonação do reactor.”

“Loucura, querida. Leva John para longe de Magalhães. Ele é um símbolo agora, não pode ser capturado pela Aliança!”

“Mas eu conheço a tecnologia da Aliança. E podemos arranjar tempo para salvar os habitantes da cidade.”

“É verdade!” Exclamou Kleiner, a sua voz sem corpo emergindo pelo transmissor num tom triunfal. ”Se eles conseguirem poderemos tentar salvar o máximo de cidadãos possível, e conservar a presença humana neste mundo alienígena.”

“Mas é loucura.”

“Nós conseguimos, pai.”

“Alyx…”

“Acredita em mim…”

Por um instante nenhuma voz se ouviu, o transmissor um bocado de plástico silencioso. Então a voz fatigada de Eli Vance ultrapassou a distância desconhecida que o separava da sua única filha, ouvindo-se como um murmúrio arrastado de um homem cansado.

“Está bem, Alyx… Eu acredito em ti. Mas volta para mim, por favor. Oh… Eu já disse isto tanta vez…”

“E eu voltei sempre, pai. E desta vez não vai ser diferente. Adeus, pai. Amo-te.”

“Amo-te, filha.”

Num gesto suave, Alyx segurou a protecção do teclado e colocou-a no sítio, efectivamente desligando o transmissor. Ela quedou-se ali por um instante, tentando controlar a respiração. Depois olhou John, ali tão perto dela, bem nos olhos. A sua face escura tinha um estranho brilho, uma beleza feérica.

“Bem John… Vamos ter de arranjar uma maneira de voltar a entrar na Cidadela.”

E dito isto afastou-se, caminhando agilmente sobre as pilhas de entulho. Ele manteve-se parado, olhando para cima, para o jacto de energia vermelha, que dobrava as nuvens espessas sob aquele céu alienígena, e dava uma cor púrpura a toda a paisagem. Pensou nas últimas palavras de Alyx para o pai. Adeus… Acreditava ela realmente que eles não conseguiram voltar a sair da Cidadela? Por qualquer motivo, também ele se sentia um pouco funesto. Mas sabia que não valia a pena falar com ela sobre o assunto. Era seguir em frente e ver no que dava…

Prefácio

Posted in Fuga de Magalhães with tags , , , , , , , , , , , , on Fevereiro 9, 2009 by s7alker

Desde muito novos que eu e o meu irmão tentamos dar novos entendimentos e criar novas camadas sobre as obras de ficção que fomos aprendendo a gostar. Não que víssemos algo de especialmente errado, creio que as nossas imaginações simplesmente não conseguiam ficar quietas. Uma parte de mim acredita que todas as crianças fazem isso, no fundo… Em qualquer caso, essas reinvenções de universos de ficção tendiam a dar para dois lados, ou recriávamos o universos à nossa própria imagem, ou tentávamos misturar conceitos totalmente distintos, normalmente ambos.

Admito que, certas vezes, os resultados eram excepcionalmente bizarros. Lembro-me do nosso universo de ficção-científica espacial, onde cruzámos coisas tão distantes como StarCraft, Trigun, Metroid, Quake 2, só para dizer alguns, e ainda acrescentámos algo da nossa mente. Gostámos muito do resultado, mas outras pessoas tendiam a considerá-lo… estranho.

À medida que fomos crescendo, a nossa efervescência criativa foi-se dissipando, e eu reparo que tendemos a ficar presos às nossas velhas criações, e já pouco inventamos. Eu, pelo meu lado, tento criar coisas novas e abandonar a reciclagem do trabalho dos outros. A minha veia de escritor amador não permitiria as coisas de outra forma.

No entanto, não pude escrever, de facto, durante os meses em que trabalhei num restaurante de fast-food. O trabalho não permitia muita divagação criativa, e ainda pago pelo tempo em que não pratiquei. No entanto, gosto de escrever, e certo dia, dei comigo com um desejo incontrolável. Tinha passado um fim-de-semana de folga a jogar Half-Life 2: Episode One, e dei comigo a relembrar um dos universo que criei com o meu irmão, um cross-over de Half-Life, Pokémon e Digimon. Estão a ler a sério, demo-nos ao trabalho de misturar isso tudo! O resultado foi bastante.. interessante, e muito mais sério do que se poderia pensar. Mas desde a nossa passagem pelo Half-Life 2 original que não pensamos no dito universo… No meu caso, até aquele dia. Fiquei com vontade de escrever algo baseado na história que entretanto chamámos de Monster Wars, uma imensa guerra entre Digimon e os habitantes da terra, Pokémon e Humanos. O resultado da guerra levou à paz entre as facções, e à criação de colónias humanas no Digimundo. City 17 tornou-se na primeira colónia, Magalhães, e a Combine uma organização de fanáticos religiosos Digimon, decidido a controlar todo o Digimundo e transformar os Humanos em Digimon. E começava assim Monster Wars 2, paralela ao Half-Life 2.

Acabei por escrever o que seria um rascunho da adaptação do Episode One ao Monster Wars. Achei o resultado bastante interessante. Para meu mal (no sentido imaginativo do termo), o melhor trabalho meu em anos.

Com 50 páginas de texto que nunca poderia publicar devido ao copyright de todos os universos, dei comigo a pensar no que fazer com aquele material. Resolvi que o iria postar na net, neste blog. É mais um descargo de consciência, mas espero que alguém o ache divertido.

Tenciono postar um capítulo a cada duas semanas, a versão portuguesa a par da inglesa. Dou todo esse tempo, pois muitos capítulos precisam de ser seriamente revistos, e ainda tenho de fazer a planeada tradução, no meu fraco inglês, mas acho que é uma boa oportunidade para treinar. Tenciono também, mais tarde, colocar uma linha histórica, para explicar os eventos.

Infelizmente, o resultado apresentado será apenas uma parcela da história, sem muita apresentação de situação e personagens, e indo directamente ao assunto, exigindo um certo conhecimento do universo Half-Life. Talvez mais tarde me dedique a contar toda a história como deve ser.

Sem mais palavras e agradecido pela vossa atenção, passo à história em si. Espero que agrade!

Vosso, S7alker.